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Em Alusão ao Dia da Cultura Nacional- O Museu de Antropologia Apresenta:
Cerâmica Negra Polida, uma obra Prima Luvale
(Os Luvale e a Sua Cultura)

Por: Américo Kwononoka *
 
 

Conhecidos também como Tulwena ,pelo facto de algumas dessas comunidades se terem fixado nas margens do rio Lwena, um dos afluentes do Zambeze, os Luvale têm uma história ligada à tradição Lunda . Segundo ela, o grande chefe Yala Mwaku com a sua esposa Nkondi habitavam na região de Nkalanyi, não muito distante da capital Lunda, Musumba, e tiveram três filhos : Cinguli , Lweji e Cinyama .

Por causa dos conflitos havidos na corte entre a princesa Lweji a- -Nkondi que detinha o poder, e os seus irmãos príncipes Cinguli e Cinyama, estes abandonaram a corte e o território.

Cinguli com os seus parentes mais afeiçoados, dirigiu-se “onde o sol morre”onde foi recebido pelo Governador de Luanda que o autorizou a estabelecer-se em Kasanji.

Cinyama emigrou em direcção Sul , instalando-se na área correspondente à actual Província do Muxiko , organizando aí o grupo que viria a receber o nome de Luvale .Um dos revoltados da corte era o Ndumba-wa-Tembo primo dos três príncipes que será o Chefe máximo dos Tucôkwe . Ele seguiu o mesmo caminho juntamente com o Cinyama , separando-se mais tarde por mútuo acordo cada um na sua direcção.

Ndumba wa Tembo seguiu o rio Kasai até ao Alto Cikapa onde fundou a capital dos Tucôkwe . Por isso, a comunidade Luvale, partilha os laços histórico - sociais e práticas rituais comuns com os seus vizinhos e afins culturais tucôkwe , tumbunda e tulunda.

Sendo do regime de filiação uterina ou matrilinear, e com a morte do grande chefe Cinyama, a estrutura politica dos tuluvale passou sob a gerência das mulheres : Nyakatolo Ngambo, Nyakatolo Kutemba e em 1927 a rainha Nyakatolo Cisengo , falecida em Julho de 1991 .

Os Luvale ocupam maioritariamente os Municípios de Alto Zambeze e Luhakano na Província do Muxiko ,registando-se uma grande concentração na República da Zâmbia e alguns núcleos na República Democrática do Kongo.

No aspecto económico, os Luvale , pela características geográficas dos Municípios onde estão concentrados, dedicam - se fundamentalmente à pesca fluvial e lacustre como principal actividade nas famosas chanas do leste . Os rios Zambeze, Lwena, Civumaji e Lumeji são ricos em variedades de peixe, como tukeya, ndembe, khele, phungu , misoji ou sese, cuja captura ultrapassa as necessidades locais, pelo que se enveredam também à exportação, não só para os restantes municípios do Muxiko , mas também para as províncias vizinhas das Lunda Norte e Sul.

No aspecto artístico e cultural , os Luvale, tal como todos povos do leste de Angola, fabricam ngoma /batuques de madeira, cobertas de pele de um antílope, cujo som, associado às melodias das suas canções , apaixonam os bailarinos e os assistentes das danças de lazer como Coombe (tchombe) e Makopo , e a Kacaca (katchatcha) para as cerimónias de iniciação feminina e masculina, esta última é conhecida como mukanda ou circuncisão, que constitui o momento mais alto da vida dos jovens de sexo masculino, que transitam de uma vida de ignorância e de imaturidade para serem introduzidos no mundo dos segredos clânicos e dos adultos .

Os Luvale são considerados pelos ceramistas como exímios fabricadores de olaria negra, polida , envernizada, modelada e ornada com figuras antropomórficas e zoomórficas , destacando-se os mulondo ou vasos encimados por cabeças de mulheres , de homens ou por uma máscara , conhecidos como “Head Pots” (vasos de cabeça).São vasos com características excepcionalmente raras e que revelam , de certo modo , o luxo dos seus utilizadores ou as possibilidades técnicas mais avançadas dos oleiros Luvale .

Para a coloração dos vasos de cerâmica, os Luvale utilizam as cascas da árvore Musombo (syzigium guineense D.c.) que depois de exprimidas , libertam uma cor preta com tons metálicos com a qual os objectos tornam –se pretos. Contra a porosidade , aplicam a resina sobre o vaso ainda quente, como resultado da cozedura que serve para o endurecimento e impermeabilidade dos objectos.

A cerâmica Luvale é de pasta fina e elitista, servindo não só para as actividades domésticas mas também para o comercio e para as cerimónias rituais. Esteticamente ela revela o avanço das técnicas dessa “escola Ceramista “através das características raras e excepcionais (cerâmica negra , polida e envernizada).

Por esta raridade técnica e de ornamentação excepcional, essa cerâmica pode ser considerada como uma obra prima e exclusiva dos Luvale ,e concomitantemente um Património Cultural a conservar e preservar, não só para a contemplação das gerações presentes, mas também como fonte de inspiração da cultura actual e das gerações vindouras.

É por isso que o estudo da cerâmica, das suas técnicas de fabricação, das formas, da decoração e da matéria prima, retém ainda e cada vez mais a atenção e a curiosidade dos arqueólogos, antropólogos e dos historiadores, sobretudo de África, na medida em que ela , a cerâmica, se bem estudada, pode transformar numa fonte histórica de muito valor, já que “fala” dos homens que a fabricam como dos seus utilizadores no seu contexto comunitário.

A presente exposição temporária, alusiva ao 8 de Janeiro, Dia da Cultura Nacional, tem como finalidade, não só de revalorizar as técnicas ditas tradicionais aplicadas à cerâmica de características excepcionais em Angola, mas também homenagear os seus fazedores, os Luvale da Região Leste de Angola ,onde terá lugar o Acto Central da Dia da Cultura Nacional /2006.

*Director do Museu Nacional de Antropologia/Ministério da Cultura.

BIBLIOGRAFIA

KWONONKA, Américo – Os povos do Leste.
Ed. Ponto Um , Luanda, 2005.

REDINHA, José- Etnossociologia do nordeste de Angola.
Agencia Geral do Ultramar, Lisboa 1958.

REDINHA, José – As máscaras de madeira na Lunda e no Alto Zambeze.
Diamang , Lisboa 1956 .

VÁRIOS AUTORES- A antropologia dos Tshokwe e Povos Aparentados.
(Colóquio em Homenagem a Marie Louise Bastin)
Faculd. Letras da Universidade do Porto, Porto 2003.

REFLEXÃO SOBRE OS POVOS LUNDA, COKWE, LUVALE E NGANGELA
( Palestra proferida pelo Sony Cipriano Kambolo no Museu nacional de Antropologia em 1992) .

www.culturalunda-tchokwe.com

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