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MÁSCARAS NO CONTEXTO DA CULTURA
 
 

O universo das máscaras angolanas tem uma apaixonada relação com a música , dança e com as cerimónias ligadas às “Sociedades Secretas “, próprias dos mais velhos ,capazes de zelar pela comunidade tanto de dia como de noite.

A maioria das máscaras de Angola é feitas de madeira , fibra vegetal e resina. As técnicas usadas para a sua construção diferem de comunidade para outra , mas há muitos aspectos que são comuns, como por exemplo ,as funções que elas desempenham .As várias formas da sua decoração , reflectem o quotidiano cultural das comunidades que elas representam .Algumas apresentam figuras antropomórficas , outras zoomórficas e geométricas .

Tendo cada uma a sua própria história , as máscaras angolanas jogam um papel crucial na asserção e consagração das deferentes cerimónias e ritos , tanto de iniciação masculina como feminina , fúnebres ,de entronização ,de casamentos ou de propiciação .Por outro lado , cada cerimónia ou rito é representado por uma máscara considerada sua patrona, responsável pela orientação dos movimentos policêntricos dos bailarinos (uma série de movimentos combinados dos dançarinos guiados pelo mascarado patrono da cerimónia) .

A maioria das áreas sócio culturais de Angola ,considera que as máscaras detém um poder sobrenatural que consagram as instituições e servem de mediadoras entre o mundo dos vivos e dos espíritos dos antepassados. Por esse facto ,determinadas camadas dessas comunidades ,não podem saber a essência que envolve as máscaras, como é o caso das mulheres e dos não circuncidados .

Os mascarados não dançam sem a música e esta não existe sem os seus respectivos instrumentos que a produzem. Na generalidade ,as exibições dos mascarados fazem – se com os sons de batuques . Quando a cerimónia é de grande envergadura , é com uma orquestra de batuques ,coadjuvados por cinguvu e outros instrumentos que os sons apaixonam os bailarinos mascarados.

Quando não há harmonia na música ,isto é ,se os tocadores descompassarem os ritmos ,o que desagrada os bailarinos mascarados , estes correm e dão volta aos tocadores para orientá-los a melhorar os sons. Em alguns casos ,os melhores mascarados já foram também tocadores de batuques , principais instrumentos da música tradicional angolana que efervesce o coração dos bailarinos mascarados .

ZONAS DE PRODUÇÃO E DE UTLIZAÇÃO DE MÁSCARAS

Com base na caracterização das máscaras de Angola , estas estão repartidas fundamentalmente em quatro regiões : leste ,centro sul, sudeste e norte .

a)-No leste de Angola, como noutras regiões , mulheres e não circuncidados ,estão proibidos de saber a essência das máscaras. Como é sabido, uma máscara pode ter a face feminina , mas o mascarado é sempre um homem que faz o papel de mulher. Entre os Côkwe , grandes mestres na execução das máscaras, a troca de uma velha máscara deteriorada , obedece a certos rituais importantes . O dançarino que a usou , prepara uma cova para enterrar a sua máscara com uma pulseira ,símbolo do retorno do “ preço da noiva”. Nesse acto ,o dançarino profere as seguintes palavras :” dancei contigo e ganhei a vida , mas envelheceste e morreste . Aqui tens a pulseira. Não me persigas nem me desejas a doença”.

Os melhores dançarinos mascarados , são tidos de facto como profissionais e essa arte às vezes é transmitida de geração a geração . Também há sanções religiosas , quando o bailarino mascarado abandona a profissão sem justificação convincente dos anciãos. Em tais casos , segundo a tradição dos Côkwe, população maioritária que ocupa o leste de Angola, a sanção ou punição sobre o “transgressor” pode ser uma doença ou morte que vem naturalmente , pelo que a comunidade comenta dizendo : “ kanaiji mumu hetcha kukina nyi mukixi “ ( “ está doente por abandonar a máscara”) .

Nessa região as principais máscaras são : Cikunza , Mwana Pwo , Cikungu , Cihongo , Katoyo e Kalelwa .

b)-Na região centro – Sul, o termo genérico para designar a máscara é Ocinganji /Otchinganji . A população maioritária do planalto central é Ovimbundu ,cujos ritos de iniciação masculina ,chamada Evamba, envolvem as acções dos Ocinganji ,respeitados e venerados pela comunidade . Como noutros povos que usam as máscaras , entre os Ovimbundu também proíbem a revelação dos segredos do mundo das máscaras às mulheres e aos não circuncidados ,nem aproximar –se delas ,pois podem eventualmente descobrir a voz da pessoa mascarada.
Das muitas máscaras que enriquecem a cultura dos Ovimbundu e que tornam os ritos e cerimónias realmente legitimados ,destacamos a Kalelwa , Kavole , Ongulu e Olongombe .

c)- O sudeste de Angola ,ocupado com maior incidência pelos Akwangangela, isto é, “os do leste” ( Lwimbi, Mbunda, Ngonjelo,Nyemba, Tukhangala e outras) , produz lindas máscaras para as cerimónias e ritos de iniciação masculina (Livamba ou Mukanda). Sendo esta uma instituição que envolve toda a comunidade ,a acção das máscaras, crêem as populações, consagram –na e tornam os candidatos em verdadeiros homens. Sem as máscaras ,não há iniciação entre os Ngangela .

Uma das mais importantes máscaras dessa comunidade ,é o Mwana Mpwevo ( Rapariga ) , encontrado também entre os Côkwe do leste de Angola , seus afins culturais. Na educação informal dos rapazes , a máscara representativa com mais impacto na circuncisão ,é o Mpumbu representante e símbolo do suposto primeiro homem , Mwene Nyumbu, que se circuncidou a si mesmo, segundo a tradição dos Akwa ku ngangela.

d)- Finalmente ,no Norte de Angola temos máscaras , cujas características das técnicas e do material de que são feitas ,são especiais .É o caso das Indungas ou Bakamas feitas de ramos de palmeiras e de outras árvores , simbolizando o mundo subjectivo das sociedades Kikongo de Cabinda ( a maioria da população de Cabinda : Oyo ,Vile e Yombe, pertence ao grande grupo Kikongo ).

Ao lado das Bakama, temos a máscara Ndemba dos bayaka ( sub- grupo Kikongo), considerada pela tradição como sendo intermediária entre o mundo dos viventes e dos mortos, cujo espírito destes, quando invocado ,supervisiona as comunidades para o bem ou para o mal . Uma das características das máscaras bayaka ,é a sua policromatização. Por exemplo Ndemba que é feita de fibras vegetais longas, é pintada na face com várias cores ,tais como a preta ,branca , verde , amarela e azul.

2.1. ESPECIFICIDADE DE ALGUMAS MÁSCARAS.

a)- MASCARA CIKUNZA

De origem Côkwe , essa máscara é policromática e tem características antropomórficas e zoomórficas .Apresenta uma cabeleireira alongada com um chifre de um antílope, um animal ligado ao poder e a virilidade .A sua função está exclusivamente relacionada com a consagração da escola de educação tradicional, mukanda .De facto ,é a máscara mais importante e patrona dessa instituição côkwe.

Segundo a tradição, Cikunza tem propriedades mágicas ,pelo que alguns caçadores amarram nos seus fuzis, tiras dessa máscara ,como amuleto de sorte . Por outro lado as mulheres põem nas suas vestes amuletos de fecundidade feitos a partir da sua imagem.

As mulheres e os não circuncidados não podem aproximar – se de Cikunza ,com agravante de açoitá-los ou feri-los sem piedade. Nos seus actos, essa máscara leva consigo um machadinho e uma feixe de ramos que serve de açoite para os indesejados.
Portanto, no universo das máscaras , Cikunza é a mais temida e respeitada na cultura e sociedade Côkwe.

b)-MASCARA NDEMBA

Esta máscara de origem Kikongo ,é feita de madeira e ráfia .Uma das principais características da Ndemba é a sua policromatização : preta, branca, verdade ,amarela e azul. Ela representa uma figura humana vestida e envolvida em fibras que partem do pescoço para baixo.

A sua função na cultura e sociedade kikongo, é de coordenar as actividades da circuncisão tradicional e de legitimar a transição dos candidatos a essa iniciação masculina, de estado de ignorância, para o estatuto socialmente reconhecido e respeitado.

Ndemba ,é assim, uma máscara intermediária entre o mundo dos vivos e dos espíritos dos antepassados ( estes são invocados através da dança e de outras representações cénicas e teatrais que reflectem a vida quotidiana kikongo).

c)- MWANA PWO

Etimologicamente, as duas palavras nas línguas do leste de Angola, significam filho(a) e mulher, respectivamente. Portanto Mwana pwo é rapariga .´
É uma das máscaras mais conhecidas , não só em Angola como também em muitos países, onde já embelezou muitas exposições etnográficas e ilustrado diversas revistas especializadas. Feita de madeira e fibras vegetais , ornada na face com tatuagens , Mwana Pwo é uma máscara feminina , embora seja sempre usada por homens que imitam a voz os dotes femininos. Em momento nenhum , o mascarado pode ser uma mulher ,pois a essência das máscaras é um segredo juramentado pelos homens a não revelar às mulheres e aos Yilima (não circuncidados) .

Na verdade , ela representa a beleza e o encanto da mulher Côkwe , numa sociedade tipicamente matrilinear ( não são as mulheres que governam ,mas tudo passa pelo lado materno).Pelo realismo da sua beleza e requinte , mwana pwo é sem dúvida uma das mais belas e conhecidas máscaras que Angola já produziu .

d)-Cikungu: Nas cerimónias de entronização ou fúnebre dos grandes chefes tradicionais Côkwe, é o Cikungu que exibe as danças e orienta todos os compassos da dança e dos diferentes mascarados presentes nessas cerimónias.Feita de fibras vegetais e ráfias , Cikungu está ligado à realeza ,pois só assume com afinco as suas danças em actos que têm a ver com os chefes .
O mascarado de Cikungu ,deve ser igualmente uma pessoa que já tenha atingido o estádio máximo das “sociedades Secretas”, no caso a Mungonge ( lê- se mungongue ) , uma instituição invulgar ,pela sua dimensão ideológica e mística .

e)-Cihongo: Uma das máscaras de suma importância nas Lunda Norte, Sul e Moxico ,relativamente às danças , considerada entre os Côkwe como o mascote de todas as técnicas e dos movimentos de quase todos os bailarinos , é sem dúvida o Cihongo. Por essa razão é igualmente tido como o Representante da coreografia tradicional dos povos do leste de Angola .
Essa máscara está também ligada ao poder, sobretudo na resolução dos problemas comunitários. É símbolo de riqueza e de fertilidade dos chefes.

f)- Katoyo. O seu papel na comunidade é de recrear as pessoas, correndo atrás delas com intuito de angariar produtos alimentícios para os tundanji ( jovens separados das mães durante a iniciação masculina ou mukanda) .

Pelo seu humorismo e cenas cómicas ,as mulheres e os Yilima não temem tanto a sua presença ,como acontece com outros mascarados que os batem e açoitam ,quando se aproximam dessa simpática máscara .

III- CONCLUSÃO

Constituindo uma manifestação artística e cultural bastante divulgada e diversificada entre os diferentes grupos étnicos de Angola, a música tradicional , reflecte e revela o espírito e toda a vivência comunitária, que tanto pode ser de alegria, de tristeza ,de nobreza ou de contacto com as representações ideológicas.

A produção de instrumentos musicais tem exactamente o carácter de expressar o”modus vivendi “ das comunidades e o papel espiritual que os mesmos jogam nos diferentes momentos e contextos social, político, económico e cultural.

Portanto ,os fabricantes e os exímios tocadores dos diferentes instrumentos musicais tradicionais ,têm uma relação estreita com os bailarinos ,que, comovidos com os vibrantes sons de membrafones, cordofones , ideofones ou de aerofones , exibem os seus dotes de dança que contagiam os assistentes que não poupam os seus bolsos para gratificar os melhores.

Finalmente , para dar mais um caril ancestral e uma dimensão diferenciada da música e da dança, surge nessa relação os mascarados para intermediar os dois mundos : dos viventes e dos espíritos ancestrais , fonte de inspiração dos primeiros. No essencial, as máscaras servem para manter a ordem e a harmonia nas comunidades, fazendo parte dos elementos da filosofia do governo dos Bantu .
Por assim ser, as máscaras constituem na verdade , um dos elementos essenciais do Património Cultural Angolano .

Licenciado em Ciências da Educação e História.
Professor de Introdução à Antropologia na Escola de Artes Plásticas e Director do Museu Nacional de Antropologia .

IV-OBRAS CONSULTADAS:

1)-BITTREIEU, Léo –Societé Secrète dês Bakhima au Mayombe, Bruxelles, 1938.
2)-BURAUD,Georges ---Les Masques , Ed. Du Seuil, Paris, 1948.
3)-MARTINS, Rui Sousa --- Sobre as máscaras da região dos Ndembu ; Ponta delgada, 1981.

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